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The Simple Talks: Gaia Hadassa

Pensando em mais formas de conectar você e a gente, resolvemos nos juntar a mais uma plataforma de comunicação: iniciamos um podcast! Nossa ideia ...
The Simple Talks: Gaia Hadassa

Pensando em mais formas de conectar você e a gente, resolvemos nos juntar a mais uma plataforma de comunicação: iniciamos um podcast!

Nossa ideia é trazer convidados especiais regularmente para discutir temas relevantes dentro e fora da nossa comunidade. E para inaugurar nosso canal, escolhemos uma convidada muito mais que especial: Gaia Hadassa. Gaia é uma mulher trans ativista com uma história lindíssima que vai inspirar você.

Confira um pouco do que rolou no nosso bate-papo! 
 

Time Simple: Oi Gaia! Tudo bem? Por que você não inicia nosso bate-papo contando um pouquinho sobre quem você é?

Gaia: Meu nome é Gaia, eu tenho 22, quase 23 anos. Eu trabalho atualmente numa empresa de software na área de suporte. Também faço faculdade de história onde trabalho como monitora de história da arte, e produzo para a internet. Tenho um canal no Youtube, produzo no Instagram e às vezes para o TikTok também. Sou uma mulher trans, bissexual e é isso (risos). 

Time Simple: A gente queria saber se você pode contar um pouco sobre a sua vida enquanto uma mulher trans. No seu trabalho, no dia a dia... 

Gaia: Então, é bem curioso a forma que os processos vão acontecendo porque desde pequena a gente sabe que algo é diferente na gente, seja na forma como você percebe o que as pessoas falam ou até mesmo nas pessoas a sua volta. Só que a gente não tem acesso à informação pra saber, pelo menos eu não tive, e na verdade a maioria das pessoas não tem mesmo, pra saber o que é aquilo que é diferente. O que é aquilo que não parece certo pra gente, e o que não falam pra gente quando estamos em algum lugar como escola, nos momentos de responder a chamada, ou de fazer filas separadas. A educação física, por exemplo, é o maior exemplo pra mim. Eu sempre me senti estranha nesses ambientes e nunca entendi o que me deixava desconfortável, sabe? A princípio eu achava que era algo na minha sexualidade que eu não tinha acesso a informação pra ter clareza, então eu reprimi ela (a sexualidade) por muito tempo. Só fui conseguir ter acesso a informação e saber mais sobre a comunidade LGBTQIA+ quando eu entrei na faculdade, quando eu tinha uns 17 pra 18 anos. Antes disso era um grande "blur"(...). Um baque muito significativo na minha infância foi em 2011 quando a Ariadna entrou no BBB (única participante trans do programa até hoje). Quando eu olhei pra ela eu senti algo diferente, e só depois que ela saiu que foi falado que ela era uma mulher trans, eu comecei a pesquisar sobre isso mas ainda era uma criança né então não entendia ainda muito bem. Mas comecei de fato a descobrir quem eu era ali pelos meus 19 anos. Até porque entrei na faculdade de história, que me permitiu muito mais acesso à informação. Foi ali que comecei a acompanhar canal de mulher trans no YouTube, seguir mulheres trans no Instagram e outras coisas voltadas a comunidade LGBTQIA+ que também abrangiam esses temas. Ah, e também fazia terapia na época que é extremamente importante, principalmente pra quem passa pelo processo de transição. É essencial ter acompanhamento de um profissional.
 

"A educação física, por exemplo, é o maior exemplo pra mim. Eu sempre me senti estranha nesses ambientes e nunca entendi o que me deixava desconfortável, sabe?"

Time Simple: Então você considera que essa representatividade, principalmente quando você era mais nova, e depois já quando você estava na faculdade de história, pela questão do YouTube e as referências na internet, foram essenciais para que você conseguisse se identificar como uma mulher trans?  

Gaia: 100%. Talvez se eu não tivesse esse contato em 2011 com a Ariadna eu só fosse entender melhor o que tava acontecendo comigo alguns anos depois. Porque depois que eu tive um pouco mais de acesso à informação na faculdade foi que me deu um "gatilho" de lembrar da Ariadna e entender porque eu tinha gostado e me interessado tanto por aquele assunto que na época eu nem sabia que me representava. Então mesmo que às vezes a pessoa ainda não saiba que ela é uma pessoa trans, o subconsciente dela já entende a informação, já é um lugar que te traz mais segurança. Você pensa tipo "se aquela mulher chegou até o Big Brother Brasil, que é um programa de alcance nacional, então eu também posso" sabe? Ajuda muito no processo de "negação" que a gente passa. Eu vi várias outras mulheres como a Liniker, Linn da Quebrada, e eu pensava "essas mulheres são muito f*das e elas são iguais a mim, então eu posso ser essa mulher e posso ter orgulho de ser a mulher que eu sou". 

Eu vi várias outras mulheres como a Liniker, Linn da Quebrada, e eu pensava "p*rra essas mulheres são muito f*das e elas são iguais a mim, então eu posso ser essa mulher e posso ter orgulho de ser a mulher que eu sou. 

Time Simple: O jeito que você fala inspira mais ainda. Porque é um jeito muito leve que torna tudo muito interessante e fácil de entender. É um processo que realmente deve ser bem difícil de fazer as pessoas entenderem e mudarem essa concepção. 

Gaia: A forma como você aborda o assunto é crucial para a forma como ele vai ser entregue. Porque se você já chegar com uma abordagem agressiva, gritando e impondo algo, as pessoas já reagem mais na defensiva. A forma como eu expliquei e mostrei esses vídeos como eu falei, de mulheres trans no YouTube, de cantoras e tal. A minha avó por exemplo, é fã da Pabllo Vittar! Ela me chama pra ver show da Pabllo na MultiShow quando passa na TV. São formas de inserir o mundo LGBTQIA+ no dia a dia das pessoas pra que todos vejam que não é algo de outro mundo. São pessoas do bem, que merecem respeito e tá tudo bem! É sobre isso (risos). 

Time Simple: Acho que nós, da comunidade LGBTQIA+, somos pessoas como qualquer outra e fazer parte da sigla não resume a nossa personalidade. É isso que falta as pessoas entenderem. Não é questão de militar o tempo inteiro, apesar dessa parte ser crucial, mas essa abordagem amigável é o que faz a diferença para que as outras pessoas fiquem mais abertas e receptivas. 

Gaia: Sim! Que nem você falou, eu ser uma mulher trans ou eu ser uma mulher bissexual não me torna completa. Isso é um pedacinho de mim mas eu tenho um milhão de outras partes. Eu gosto de estudar marketing, eu gosto de produzir meus conteúdos, de editar meus vídeos. Eu trabalho, eu estudo, eu faço uma infinidade de coisas que não tem a ver com a minha identidade de gênero ou com a minha orientação sexual (...). As pessoas acham que se eu sou uma mulher trans eu só posso falar sobre a minha transição, mas não! Eu quero estudar e dar uma palestra sobre marketing, eu quero algum dia dar aula de história da arte, falar de cosméticos e fazer tutorial de maquiagem, e várias outras coisas que não estão atreladas à minha identidade de gênero ou orientação sexual. Acho que isso é muito importante de fazer as pessoas entenderem. 

Time Simple: Com certeza! Entrando ainda na questão da representatividade, acho que podemos dizer que o Youtube tem um grande papel nisso, porque ele permite uma certa abertura pra que as pessoas pesquisarem sobre qualquer tipo de coisa. Como você acha que as marcas, de beleza num geral, abordam essa representatividade? Você acha que falta alguma coisa? 

Gaia: Eu acho que dá pra reparar sim que teve um crescimento na representatividade, graças a nossa luta, então sim teve crescimento. Mas eu ainda acho que falta, vendo de fora, há um tempo eu já tava reparando: chega em junho e todas as marcas fazem rótulos com a bandeira do arco-íris, trazem pessoas da comunidade LGBT, e no restante do ano a maioria das marcas apenas esquece. Foi uma coisa que, inclusive eu gostei na marca de vocês. Você entra no site e já tá ali a representatividade, é genderless e é isso, tá ali! Eu ainda vejo um deficit nas campanhas ao longo do ano, a gente não compra só produtos em junho. Não basta apenas uma campanha de dia dos namorados dizendo que apoiam todas as formas de amor. Também importa dentro do time das empresas, a sua empresa emprega pessoas trans? Na empresa que eu trabalho eu sou a única pessoa trans, a única. Nas outras empresas a taxa de empregados trans é zero, não tem. E ainda assim é difícil conseguir o emprego. Na hora do currículo tudo uma maravilha, na hora de enviar o vídeo muitas vezes eu nem recebia Feedback dos empregadores. Por que? Eu sei fazer vídeo, trabalho com vídeo, tenho desenvoltura em frente as câmeras, o problema está em algum outro lugar. Então não basta nas campanhas, dentro do time é essencial a representatividade.

Time Simple: Qual você acha que seria o caminho, não apenas nas empresas mas de modo geral, para que as pessoas se conscientizem sobre a comunidade LGBTQIA+? 

Gaia: A ocupação de espaço. Igual eu falei, pode ser dentro de uma empresa, porque é importante por exemplo, se alguém vai fazer uma campanha que possa não pegar bem, é importante que tenha alguém ali dentro pra aconselhar. Dentro das escolas também, quantos professores trans você já teve na sua vida? Seja no primário ou até na faculdade? Eu não tive nenhuma. A ocupação de espaço faz com que sejamos vistos de uma forma mais humanizada, porque até então nos veem como figuras exóticas, as pessoas trans principalmente. Tem uma influencer que eu sigo e que eu amo, a Pepita, e ela bate sempre nessa tecla "eu quero ir no hospital e ser atendida por uma enfermeira trans, eu quero ir numa farmácia e ser atendida por uma farmacêutica trans, eu quero me ver em espaços que vão além dos que eu me vejo agora", e eu acho que é bem por aí. 

Time Simple: Com certeza. Isso que você falou também é bem importante na mídia de modo geral. Essa questão envolve muito a empregabilidade de pessoas trans. As pessoas trans, tanto homens quanto mulheres, são muito sexualizados e isso afeta a empregabilidade, porque muitas vezes a pessoa não tem voz no emprego ou é questionada pela qualificação.

Gaia: Essa questão é muito complicada porque tem empresas que abrem cotas, tipo, há um número X de vagas a serem preenchidas mas não sabem lidar com pessoas trans na prática, sabe? Eu, por exemplo, tenho um problema muito grande com a minha voz. Eu não consigo fazer ligações no telefone porque entro em pânico, começo a pensar que as pessoas vão achar minha voz muito grave e vão se referir a mim no masculino e isso me gera muito desconforto, isso é disforia de gênero, eu tenho muito. Então esse é um problema que uma pessoa cis não teria. Tem coisas que eu não conseguiria fazer, então as empresas tem que saber lidar também, tem que entender nosso processo. A empresa que eu trabalho foi super empática e tranquila quando eu apresentei meu problema, mas talvez outras empresas não fossem assim. 

Time Simple: A gente também queria saber se você tem algum conselho pra pessoas que estejam passando por esse processo de se descobrir como uma pessoa trans.

Gaia: Eu acho que tem que consumir o conteúdo de pessoas trans e entender os processos. Eu sei que cada pessoa tem um processo diferente e não existe uma fórmula mágica mas acho que consumir esses conteúdos e entender o seu processo é essencial. Pesquise, procurar uma terapia se for viável pra você, se cerque de pessoas que querem o seu bem, ter apoio é fundamental. Eu tenho amigas que não foram apoiadas no processo de transição, que foram questionadas, julgadas e não é bem por aí. A gente precisa do apoio. Não se duvida do processo de alguém. E claro que o apoio é importante, mas tente ao máximo não ligar para o que os outros vão pensar porque no final, esse é um processo seu, se ninguém te apoiar e mesmo assim você sentir que esse é o certo, vai com tudo, no final vai valer a pena. Outro ponto muito importante são as aparências. No início você vai querer ficar o mais parecido possível com uma pessoa cis porque em tese você não vai sofrer muito na rua, né? Muitas meninas começam a tomar hormônio sem acompanhamento médico, começam a se submeter a milhões de procedimentos estéticos e esse não é o caminho. Você tem que se sentir bem antes de tudo isso porque um tratamento hormonal, por exemplo, mexe muito com o seu psicológico e com o seu corpo. A pergunta que eu mais recebo, por sinal, é se eu tomo hormônios. Eu ainda não me sinto confortável para tomar, não quero chegar na farmácia, comprar um monte de hormônio e tomar sem acompanhamento. É a minha saúde, o meu corpo, e eu preciso me sentir confortável primeiro. Muitas meninas que eu conheço inclusive se arrependeram de vários procedimentos porque fizeram no impulso, e isso não vai resolver seus problemas. Temos que sempre priorizar a saúde e não tentar alcançar um padrão para que as outras pessoas te aceitem. 

Time Simple: Já estamos chegando no finalzinho da entrevista e queríamos saber se você tem algum recado final pra quem tá ouvindo a gente. 

Gaia: Acho que é mais um pedido do que um recado, mas é: Respeitem e apoiem pessoas trans independente da área que ela estiver atuando. Se ela está produzindo um conteúdo legal ajude, engaje, curta, comente. Se ela tá fazendo faculdade, ou até prestando um serviço, no salão fazendo a unha, ou o cabelo, ajuda, apoia, compartilha, sabe? E respeita o espaço dela porque a nossa luta é diária, ela não é só no mês de junho, ela é o ano inteiro. Todos os dias temos obstáculos que precisam ser ultrapassados e precisamos desse apoio para o nosso desenvolvimento e crescimento. 

Time Simple: Gostaríamos de agradecer pela sua presença. Você inspira muito a gente, continue assim que temos certeza que você vai muito longe. É incrível ver o seu trabalho. 

Gaia: Muito obrigada pelo convite, não é sempre que uma marca se importa com a gente tanto assim então parabéns de verdade e obrigada pelo convite, foi maravilhoso. 

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Para conhecer um pouco mais sobre a Gaia e o seu trabalho pela comunidade LGBTQIA+, confira suas plataformas nas redes sociais: 
Instagram: https://www.instagram.com/gaiahadassa/
Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCOa75S8OU9LYB7F7K3RFRWw
 

Confira a entrevista completa no Spotify, clicando aqui


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